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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Porque hoje é segunda... é dia de Teoria!

Esta semana considerámos pertinente abordar a importância dos pais como primeiros agentes de socialização. 
Será que as diferentes formas como educam os filhos produzem diferenças no seu comportamento? Se assim for, quão duradouros serão esses efeitos?

Diferentes estilos de educação infantil

Padrão Autocrático: os pais seguem padrões rígidos sobre como a criança deve ou não deve falar e agir e tentam moldar o comportamento desta de acordo com estes padrões. Estes pais estabelecem regras firmes e reagem a qualquer infracção com punições duras e às vezes severas (frequentemente físicas). Os pais autocráticos não acreditam que seja preciso explicar as regras à criança, esperando que ela as aceite como uma simples manifestação do poder paternal: "é assim porque eu digo que é assim".

Padrão Permissivo: as crianças encontram poucos "não faças" e "faz". Os pais tentam não afirmar a sua autoridade, impõem poucas restrições e controlo, tendem a não estabelecer horários (por exemplo, para ir para a cama ou ver televisão) e raramente usam castigos. Também fazem poucas exigências aos filhos, como arrumar os brinquedos, fazer os trabalhos da escola ou ajudar em tarefas domésticas.
Os pais autocráticos exercem o poder paternal; os pais permissivos abdicam dele.

Padrão Autoritário-recíproco: os pais exercem o seu poder, mas também aceitam a obrigação recíproca de se acomodarem ao ponto de vista da criança e às suas exigências razoáveis. Estes pais estabelecem regras de conduta para os filhos e fazem-nas cumprir quando necessário. Fazem exigências razoáveis, estabelecem e
deveres, esperam que os filhos se comportem com maturidade. Eles passam um tempo considerável a ensiná-los a comportarem-se devidamente, mas também encorajam a independência da criança e permitem o diálogo de igual para igual. Ao contrário dos pais permissivos, eles mandam; mas ao contrário dos autocráticos tentam dirigir com o consentimento dos dirigidos.



Estudos verificam que as crianças educadas autocraticamente são pouco comunicativas, carecem de  independência e mostram-se irritadas e desobedientes, especialmente os rapazes. As crianças educadas permissivamente apresentam características semelhantes. Além disso, parecem muito imaturos e com falta de responsabilidade social. Pelo contrário, as crianças criadas de modo autoritário-recíproco são mais independentes, capazes e socialmente responsáveis. 

Retirado e adaptado de Psicologia de Henry Gleitman, Alan J. Fridlund e Daniel Reisberg. 8ª Edição da Fundação Calouste Gulbenkian. Páginas 808 - 810

Reflexão e Teoria: Violência na escola. O caso relatado no El País.


Esta notícia do jornal El País relata uma medida judicial invulgar respeitante a um caso de violência entre alunos dentro da escola.

 Recentemente em Portugal assistiu-se a um caso semelhante de agressão entre colegas gravado e colocado no facebook. Esse vídeo mostra duas jovens que agridem uma terceira, de 14 anos, à estalada e ao pontapé perante a passividade de outros adolescentes, na região de Lisboa. A vítima chega mesmo a ser deitada ao chão e aí são-lhe dados pontapés em várias partes do corpo, incluindo na cabeça.

Apesar de as situações serem semelhantes, o espaço onde ocorre a agressão pode fazer a diferença. Enquanto no caso português as adolescentes se agridem na rua, não menosprezando o dever civil de auxiliar aquele que precisa de nós, no caso espanhol a agressão ocorre no recinto escolar, onde deve ser salvaguardada a segurança das crianças.

As CresSeres consideram que (e baseando apenas na notícia publicada pelo jornal) não existem pistas contextuais suficientes para formular uma opinião bem fundamentada relativamente a este caso em particular. Poderia o agressor ser uma vítima de bullying por parte do colega agredido? Seria o agressor uma criança problemática que não foi referenciada pela escola? A escola referenciou a criança como agressiva e comunicou anteriormente aos pais? Existia acompanhamento psicológico à criança agressora antes do acontecimento? A criança tinha algum problema clínico mental? Como é o ambiente familiar em que a criança se enquadra? Como é caracterizada a sociedade onde esta se insere?

São várias as questões que nos impedem de ajuizar esta situação.

Mas, no geral, a nossa opinião é a de que a responsabilidade da base da educação deve de facto começar na família, que deve ser responsabilizada pelos actos dos educandos. Mas a escola, como agente educativo, também tem a responsabilidade de assegurar condutas educativas correctas e a segurança das crianças e adolescentes dentro do espaço escolar. Para isso existem regras escolares, existem auxiliares educativos, professores, gradeamento, penalizações (como suspensão ou trabalho escolar extra)...

Um estudo de parceria entre a Universidade de Granada e a Universidade Portucalense intitulado “ A violência nas escolas como resultado dos problemas de inadaptação social”  refere que a violência protagonizada pelos jovens nas escolas é uma realidade inegável. A sociedade terá que se organizar e insurgir-se activamente contra este fenómeno. De igual modo, a escola terá que ajustar os seus conteúdos programáticos e acercar-se mais às crianças. Devido às exigências, as famílias muitas vezes destituem-se da sua função educativa, delegando-a à escola. No meio de toda esta confusão, estão as crianças, que, actuam conforme aquilo que observam e agem consoante os estímulos do meio. Meio esse que por vezes oferece modelos de conduta e referências positivas questionáveis.

O Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (1996:95) reforça que “a família constitui o primeiro lugar de toda e qualquer educação e assegura, por isso, a ligação entre o afectivo e o cognitivo, assim como a transmissão dos valores e normas”.

Todavia, devido às exigências actuais, os pais cedo colocam os filhos em amas, creches ou infantários. Chegam a casa exaustos de um dia de trabalho, têm ainda as lides domésticas ou trazem trabalho para casa. A criança é colocada sozinha a ver televisão ou a brincar sem um adulto que lhe dê atenção. A relação familiar centra-se prioritariamente nas necessidades físicas da criança, ou seja, na alimentação, na higiene ou no descanso.

Enquanto jovens, o lazer e o convívio com os colegas tem uma importância primordial no seu processo de socialização e formação. Embora haja uma certa continuidade na transmissão de valores de pais para filhos, a verdade é que os jovens de hoje adquirem a sua identidade não só dentro, mas também fora da família, através de discursos variados que a escola e a família poderão ou não integrar. Todavia, a família não se pode demitir do seu papel e atribuir responsabilidades aos outros agentes educativos na formação dos seus descendentes.

Anna Freud (1987:162) alude ao facto de o equilíbrio interno ser perturbado, da personalidade, do meio onde se inserem. Estudos realizados a delinquentes comprovaram que graves distúrbios da socialização acontecem quando a identificação com os pais é desintegrada através de separações, rejeições e outras interferências com os vínculos emocionais existentes entre a criança e as figuras parentais. Muitas vezes a raiz do problema não se centra na educação. O jovem apresenta problemas que deveriam ser direccionados para a saúde mental infantil e adolescente, para a protecção social ou até judicialmente. O cerne da questão é que muitas escolas tentam resolver os problemas para os quais não estão preparadas e que não são da sua competência, reforça Sónia Azevedo no seu artigo.

No entanto para combater a violência, a escola tem de analisar a forma como é exercido o seu controlo, tem que se organizar pedagogicamente, para conseguir deter a violência não só interior, mas também exterior.

Dado que o fenómeno da violência é muito amplo e surge em variadíssimos contextos, resta então cogitar que toda a sociedade se deveria mobilizar para proteger os cidadãos de amanhã, para que não tenham um futuro sombrio, enredados em sofrimento, privações e sem projectos de vida.

Retirado e adaptado de “A violência nas escolas como resultado dos problemas de inadaptação social” de Sónia Carla Aroso Azevedo em: www.monografias.com





segunda-feira, 23 de maio de 2011

Porque hoje é segunda...é dia de Teoria!

História da Psicologia do Desenvolvimento


- Desde a antiguidade que se têm multiplicado concepções sobre o que é a criança, tendo em conta as diversas perspectivas encaradas até ao final do séc. XIX, resultando essencialmente de invenções culturais: crenças sobre a natureza, desenvolvimento e socialização.


- No último milénio verificou-se uma preocupação com o estatuto moral, filosófico e psicológico da criança, bem como o seu processo de socialização. Preocupação esta considerada necessária para assegurar ao adulto, emergente da criança, o cumprimento do destino que a família e a sociedade lhe prepararam. A criança era encarada, preponderantemente, como estando ao serviço do adulto; o “contrário” (o meio ambiente ao serviço da criança), só é encarado seriamente e filosoficamente a partir do séc. XIX.


- A Psicologia do Desenvolvimento começou a emergir em finais do séc. XIX, podendo a sua história organizar-se de acordo com a proposta de Robert B. Cairns (1983), em três períodos: o formativo (1882-1912), o intermédio (1913-1946) e a era moderna (1947-1982).


Formativo: Considerado o dos “precursores e pioneiros”, está associado ás figuras de Sigmund Freud, entre outros, sendo caracterizado pela emergência de estudos de epistemologia genética sobre o desenvolvimento cognitivo, social, moral e da personalidade, bem como sobre das relações entre evolução e desenvolvimento, feitos de experiências precoces, contribuição da hereditariedade e da experiência, etc,.


Intermédio: Denominado o da “institucionalização e fragmentação”, onde foram estudados empiricamente quase todos os objectivos do comportamento e cognição da criança, bem como o curso “normal” do desenvolvimento sensório-motor, cognitivo e social. O behaviorismo ganhou uma importância crescente, bem como os estudos sobre maturação e crescimento, linguagem e pensamento. Desenvolveu-se ainda a etologia, a teoria da aprendizagem social e a psicanálise.


Era moderna: Período de “expansão e maturação” onde ocorreu o desenvolvimento de novas técnicas e abordagens, relacionadas em parte com o avanço da electrónica e informática. Época de expansão, invenção e crítica, cobrindo todas as áreas de investigação e intervenção. Declínio das teorias ligadas à aprendizagem, tendo começado a ser aplicado o conceito de condicionamento operante de Skinner através da análise da modificação do comportamento, e sendo também abordados, detalhadamente os conceitos de “condicionamento”, “reforço social”, etc,. Foi também introduzido o conceito de imitação para explicar a aquisição de padrões sociais.


- Desde a década de 60, e em parte devido ao renascer do interesse pela teoria de Piaget e á actualidade da abordagem da Aprendizagem Social, a psicologia do desenvolvimento centrou-se no estudo dos processos do desenvolvimento mental e dos mecanismos de mediação, sendo de certo modo transpostas as barreiras entre o desenvolvimento cognitivo e social. Assistiu-se a uma aproximação entre as investigações com animais e com as crianças, dando lugar a novas questões sobre o desenvolvimento psicológico e comportamental.


- A psicanálise e a etologia aproximaram-se, através dos estudos desenvolvidos por Bowlby e Ainsworth e o conceito de desenvolvimento foi redescoberto através de estudos sobre a criança (como organismo em adaptação) e das suas competências; este conceito, extensível ao estudo do ser humano ao longo do ciclo vital, permite estabelecer uma ligação entre várias áreas da psicologia relacionadas com a adaptação cognitiva e social.



Retirado do livro: Borges, Maria Isolina Pinto – Introdução à Psicologia do Desenvolvimento. Porto: Jornal da Psicologia.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Porque hoje é segunda... é dia de teoria!


Complexo de Édipo


      Sigmund Freud, psicanalista austríaco, identificou o Complexo de Édipo no decorrer de uma das fases do nosso desenvolvimento psicossexual, nomeadamente na fase fálica. Esta fase ocorre por volta dos três anos e é nela que se forma a identidade sexual (a criança começa a manifestar o interesse pelo conhecimento corporal, perceber as diferenças sexuais e manipular os seus órgãos genitais).



Freud admitia que todas as crianças sofriam um conflito interior, na sua totalidade inconsciente, que visava o desejo de possuir o elemento do sexo oposto e, simultaneamente, a vontade de eliminar o rival do mesmo sexo, por quem experimenta sentimentos ambivalentes de amor e ódio. A relação de um filho rapaz com a mãe vai aprofundando-se e uma relação triangular advém da rápida percepção que a criança tem da existência de um rival, especificamente o pai.


Na fantasia da criança, a relação triangular consiste na seguinte ordem de ideias: o pai é quem fica com a mãe e o impede de realizar o desejo inconsciente de ter a mãe como ele quer. Deste modo, o rapaz investe intensamente na mãe, criando sentimentos ambivalentes de raiva/ódio e de ternura/carinho em relação ao pai. Por vezes a criança fantasia com a morte do pai e como o quer eliminar pensa que este lhe deseja o mesmo. Esta é uma situação conflituosa e vai suscitar na criança o receio de ser castrado pelo pai (complexo de castração). A ansiedade de castração, o amor/ódio pelo pai e o desejo sexual que a criança nutre pela mãe não podem ser resolvidos. Posto isto, a criança inicia o processo de identificação com o modelo parental do mesmo sexo (pai).


O complexo de Édipo é resolvido quando, num sentimento de frustração, a criança percebe que não vai ter a mãe pois ela é do pai.
Em suma, o Complexo de Édipo é considerado o acontecimento mais importante da nossa evolução psíquica visto que é a partir da sua resolução que se completa a constituição de todas as instâncias - Ego e Super-Ego – do nosso aparelho psíquico.

Sigmund Freud
Bibliografia 

terça-feira, 10 de maio de 2011

Porque hoje é segunda... é dia de teoria!

Com algum atraso, mas sem querer passar em falso mais uma segunda feira, o blogue cresSER apresenta mais uma teoria sobre o desenvolvimento. Esta segunda (terça) feira é sobre o Psicólogo francês, Henri Wallon. "Este nasceu em 1879 e desde cedo se questionou acerca da forma como se processa o desenvolvimento psicológico. Wallon considerava que não existe uma continuidade serena ao longo do desenvolvimento, mas sim um processo que se desenrola através de crises e conflitos que geram crescimento e consequente evolução.

A sua teoria do desenvolvimento apresenta seis estádios: o estádio da impulsividade motora, onde a criança embora não esteja numa dependência biológica total com a mãe, continua ainda dependente do meio humano à sua volta para a satisfação das suas necessidades mais básicas; o estádio emocional que se inicia por volta dos dois, três meses atingindo o seu apogeu aos seis meses e que se caracteriza pela transformação progressiva das descargas impulsivas sobrepondo-se ao estádio impulsivo; o estádio sensório-motor e projetivo, no qual a criança se liberta do estado de simbiose afetiva com a mãe; o estádio do personalismo que vai dos três aos seis anos, devendo a criança adquirir neste período as noções de corpo próprio e a tomada de consciência de si; o estádio categorial que se situa por volta dos seis/onze anos e no qual surgem dados relativos à construção do Eu e ao conhecimento dos objetos e situações que permitem à criança uma adaptação mais equilibrada ao meio; e por fim o estádio da puberdade e da adolescência onde se verifica um rompimento súbito e abrupto com o equilíbrio anteriormente adquirido. Neste último estádio, o adolescente vai questionar-se sobre as transformações físicas e psicológicas que está a vivenciar, dando normalmente origem a uma crise que marca o início da adolescência e que leva a uma viragem sobre si próprio provocando uma reflexão sobre o seu destino, o seu futuro, a razão de existir, o mundo que o rodeia, entre outros aspetos. É um processo de identificação, uma crise, que tem de ser ultrapassada para gerar desenvolvimento.

Para Wallon o comportamento de cada individuo é, assim, determinado pela interação entre fatores biológicos e sociais.

Este psicólogo desenvolvimentalista morreu em 1962 deixando um legado de obras importantes tais como L'Evolution psychologique de l'enfant, A Psicologia e educação da criança, entre outras."


in Henri Wallon. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-05-10].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$henri-wallon>

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Juno: adolescência, divórcio e relacionamentos

Em Juno, o contexto familiar da adolescente que dá nome ao filme é o de esta pertencer a uma família separada pelo divórcio dos pais, que para além da existência da ruptura conjugal existe ainda uma ruptura parental. A mãe é uma mãe ausente na sua vida e o pai nunca estabeleceu com ela uma vinculação suficientemente forte para existir abertura, diálogo e convivência entre estes.
O tema: divórcio, nas últimas décadas, tem tido um crescente interesse em ser estudado e reflectido devido ao acentuado aumento de casos em todo o mundo. Como conjugação deste ser um tema abordado no filme e do facto de o blogue cresSER ter como função a divulgação de assuntos de relevância para o desenvolvimento da criança no contexto familiar, achamos pertinente divulgar um artigo: “Adolescência e Divórcio Parental: continuidades e rupturas dos relacionamentos”, publicado a 7 de Maio de 2010, de Soraya Hack e Vera Ramires, ambas Psicólogas. O objectivo do artigo é apresentar uma revisão da literatura que aborda os relacionamentos pais-filhos no contexto das transições familiares relacionadas à separação e/ou divórcio parental, focando as reacções, as experiências, as concepções, os sentimentos dos filhos, especialmente dos adolescentes.
Nas últimas décadas, assistimos a uma mudança no cenário sociocultural, provocada, entre outros factores, pelas alterações na estrutura familiar. O divórcio trouxe um leque de novas configurações e organizações familiares. A separação dos pais muitas vezes implica descontinuidades, rupturas no relacionamento parental, gerando sentimentos de perda e desamparo.
Os efeitos do divórcio não são necessariamente adversos (Hetherington & Kelly, 2002; Hetherington & Stanley-Hagan, 1999). Muitos filhos que se movem de uma situação familiar conflituosa para uma situação mais harmónica mostram uma diminuição de problemas após a separação de seus pais (Kelly & Emery, 2003).
A literatura científica tem explorado e descrito numerosos factores que contribuem para as vicissitudes do pós-divórcio: o tempo de separação, as características da personalidade das crianças e adolescentes, a sua idade na ocasião da separação, o género, o nível de conflito entre os pais e a qualidade da parentalidade.
O problema instala-se quando os pais, além de considerarem os cônjuges como “ex”, passam a enquadrar suas crianças na categoria de “ex-filhos” (Dantas et al., 2004).
A capacidade dos filhos em lidar com a separação dos pais vai depender sobretudo da relação estabelecida entre os pais e da capacidade destes de distinguir a função conjugal da função parental (Féres-Carneiro, 1998).
Segundo a revisão de Cohen (2002), no divórcio parental o adolescente pode desenvolver uma autonomia prematura, com desidealização de cada pai. Também sentimentos de raiva e confusão podem levar a problemas de relacionamento, uso de substâncias, decréscimo do desempenho escolar, conduta sexual inadequada, depressão, agressividade e comportamento delinquente. Problemas académicos e dificuldades de relacionamento também apareceram na revisão de Kelly e Emery (2003). O estudo de corte realizado por Harland et al. (2002) detectou um índice maior de problemas comportamentais entre 12 e 16 anos nos filhos provenientes de famílias com pais divorciados.
De acordo com Kelly e Emery (2003), o adolescente do sexo masculino tem mais riscos de apresentar problemas de ajustamento e problemas académicos. No entanto, as adolescentes estão inclinadas a engravidar mais cedo.
As pesquisas, independentemente da variável em foco ou da metodologia utilizada, sugerem que o divórcio parental passa a ser um factor de risco para os filhos, caso se tenha consolidado um afastamento entre eles e as figuras parentais. A sensação de abandono e desamparo cria uma situação de vulnerabilidade, propiciando o aparecimento ou a potencialização de desajustes.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Juno numa perspectiva eriksoniana

Erikson propõe uma concepção de desenvolvimento em oito estádios psicossociais, que decorrem desde o nascimento até à morte. Cada estádio é atravessado por uma crise psicossocial entre uma vertente positiva e uma negativa. Erikson dá especial importância ao período da adolescência, devido ao fato ser a transição entre a infância e a idade adulta, em que se verificam acontecimentos relevantes para a personalidade adulta.
Cada estádio contribui para a formação da personalidade total, sendo por isso todos importantes mesmo depois de os atravessar.
O núcleo de cada estádio é uma crise básica, que existe não só durante aquele estádio específico, nesse será mais proeminente, mas também nos posteriores a nível de consequências, tendo raízes prévias nos anteriores.
Erikson perspectivava o desenvolvimento tendo em conta aspectos biológicos, individuais e sociais.
Esta teoria psicossocial enfatizava o conceito de identidade, a qual se forma no 5º estádio, e o de crise que, sem possuir um sentido dramático, está presente em todas as idades, sendo a forma como é resolvida determinante para resolver na vida futura os conflitos.

Esquema de desenvolvimento de Erik Erikson

1. Confiança  vs  Desconfiança  (até um ano de idade)

Durante o primeiro ano de vida a criança é significativamente dependente das pessoas que cuidam dela, requerendo cuidado quanto à alimentação, higiene, locomoção, aprendizagem de palavras e dos seus significados, bem como estimulação para perceber que existe um mundo em movimento ao seu redor. O amadurecimento ocorrerá de forma equilibrada se a criança sentir que tem segurança e afecto, adquirindo confiança nas pessoas e no mundo.

2. Autonomia  vs  Vergonha e Dúvida   (segundo e terceiro ano)

Neste estádio a criança passa a ter controle de suas necessidades fisiológicas e a cuidar da sua higiene pessoal, o que dá à criança grande autonomia, confiança e liberdade para tentar novas coisas sem medo de errar. Se, no entanto, for criticada ou ridicularizada desenvolverá vergonha e dúvida quanto à sua capacidade de ser autónoma, provocando um retrocesso ao estágio anterior, ou seja, à dependência.

3. Iniciativa  vs  Culpa (quarto e quinto ano)

Neste período a criança passa a perceber as diferenças sexuais, os papéis desempenhados por mulheres e homens, entendendo de forma diferente o mundo que a rodeia. Se a sua curiosidade “sexual” e  intelectual for reprimida e castigada poderá desenvolver sentimento de culpa e diminuir a sua iniciativa de explorar novas situações ou de procurar novos conhecimentos.

4. Construtividade  vs  Inferioridade (dos 6 aos 11 anos)

Durante este estádio a criança está a frequentar a escola, o que propicia o convívio com pessoas que não são seus familiares. Este facto exigirá  maior sociabilização, trabalho em conjunto, cooperatividade e outras habilidades necessárias. Caso tenha dificuldades o próprio grupo irá criticá-la, passando a viver a inferioridade em vez da construtividade.

5. Identidade  vs  Confusão de Papéis (dos 12 aos 18 anos)

O quinto estádio adquire contornos diferentes devido à crise psicossocial que nele acontece, ou seja, Identidade Versus Confusão. Neste contexto o termo crise não possui uma acepção dramática, por  tratar-se de acontecimentos pontuais e localizado com pólos positivos e negativos.

6. Intimidade  vs  Isolamento (jovem adulto)

Neste estádio o interesse, além de profissional, gira à volta da construção de relações profundas e duradouras, podendo vivenciar momentos de grande intimidade e entrega afectiva. Caso haja uma decepção a tendência será o isolamento temporário ou duradouro.

7. Produtividade  vs  Estagnação  (meia idade)
Durante este estádio o indivíduo pode dedicar-se à sociedade realizando valiosas contribuições ou grande preocupação com o conforto físico e material.

8. Integridade  vs  Desesperança (velhice)

Neste último estádio o envelhecimento ocorre com  sentimento de produtividade e valorização do que foi vivido, sem arrependimentos e lamentações sobre oportunidades perdidas ou erros cometidos, haverá integridade e ganhos. Como contrário a isso existe a desesperança que se manifesta num sentimento de tempo perdido e na noção da  impossibilidade de começar de novo, de voltar atrás.

adaptado de Teoria Psicossocial do desenvolvimento de Erik Erikson in artigos.psicologado.com

O filme Juno retrata a experiência da gravidez na adolescência, por parte da jovem Juno (16 anos), e como esta experiência é percepcionada tanto na rapariga, como no futuro pai da criança (também ele adolescente), como também por parte dos pais da jovem Juno. Segundo Erikson, é nesta faixa etária que acontece a transição da infância para a idade adulta, desenvolvendo um sentido de identidade. Identidade vs confusão de papéis é a crise psicossocial deste estádio, tendo esta uma vertente positiva e outra negativa. «[…] uma mudança decisiva, um momento agudo de desequilíbrio. A noção está portanto associada às noções da continuidade ou da descontinuidade do desenvolvimento, e à própria validação do conteúdo dos estádios». (Roland Doron; François Parot, 2001: p.196)
Na vertente positiva, o adolescente vai adquirir uma identidade psicossocial, isto é, compreende a sua singularidade, o seu papel no mundo.
Neste estádio os indivíduos estão recheados de novas potencialidades cognitivas, exploram e ensaiam estatutos e papéis sociais, devido à sociedade potenciar este espaço de experimentação ao adolescente. É neste âmbito que ressalta um dos conceitos eriksonianos que ajuda a conferir tanta relevância a este estádio, ou seja, a moratória psicossocial.
«Esta moratória é um compasso de espera nos compromissos adultos. É um período de pausa necessária a muitos jovens, de procura de alternativas e de experimentação de papéis, que vai permitir um trabalho de elaboração interna». (Manuela Monteiro; Milice Ribeiro dos Santos, 2001: p.56)

Juno, assim como um grande número de adolescentes, tem uma evolução incompleta por ter entrado excessivamente rápido na vida adulta, devido ao facto de estar grávida, sem um amadurecimento interior, que só poderia ter sido facultado por uma boa vivência neste estádio e nos seus diferentes aspectos.
Logo na primeira cena, a rapariga aparece a carregar uma garrafa de sumo, que ela leva à boca em grandes goles. Dirige-se para uma loja de conveniência onde compra o terceiro teste de gravidez. O homem que está na caixa, num tom bastante informal e invasivo, lembra-a de que ela já fez dois testes, ambos com resultado positivo. Ela, sem se importar com o comentário, vai ao WC para refazer o teste, o qual confirma os outros dois. Ela está grávida. Juno vê a notícia como uma sentença e apercebendo-se da sua imaturidade para lidar com este acontecimento trágico, que mudaria completamente a sua vida, tenta pensar em soluções. Soluções que parecem as mais rápidas (aborto), para que tudo não passe de um pesadelo, mas que ao mesmo tempo a assombram com o que poderão ser ou trazer.
A chave para a resolução desta crise de identidade, que faz com que a adolescente se sinta isolada, vazia, ansiosa e indecisa, reside na interacção com pessoas significativas, como o Paulie (pai do bebé), com o qual vai ao longo do filme estabelecendo laços afectivos, que são escolhidas e são parte integrante da construção da sua identidade adulta.
Paulie, pai do bebé é caracterizado como um rapaz muito infantil, alienado, que parece não entender minimamente o desenrolar das acções, as suas consequências e a responsabilidade que lhe cabe em tudo isso. Ele e um amigo comentam que Juno está grávida, “assim como a mãe e as professoras ficam”. Há uma inocência na leitura desta experiência.
Erikson refere que os problemas no desenvolvimento da identidade podem culminar numa identidade difusa, caracterizada por «[…]uma noção do eu incoerente, desarticulada e incompleta», numa identidade bloqueada, caracterizada pela «[…] não permissão do período normal de moratória por questões sociais, familiares e/ou pessoais» e finalmente numa identidade negativa, em que «o adolescente selecciona identidades que são indesejáveis para a família e sua comunidade».
O versus negativo menciona os aspectos, sentimentos relacionados à confusão/difusão de quem ainda não se descobriu a si próprio, e não sabe o que pretende, tendo dificuldade em optar.
É importante contextualizar que Juno pertence a uma família desestruturada. Filha de pais divorciados, a mãe é totalmente ausente e o pai nunca criou com ela uma vinculação suficientemente forte para que esta confie nele. Foi por isso habituada a descobrir e experienciar a vida por ela própria. Este facto remete para os estádios anteriores da teoria de Erikson, sugerindo que estes não tiveram as suas crises revolvidas, na sua maioria, numa vertente positiva; acabando por influenciar o estádio da adolescência como um estádio caracterizado pela instabilidade.

Erik Erikson

"Psicanalista de origem alemã, Erik Homburger Erikson nasceu a 15 de Junho de 1902, no início do século em Frankfurt, na Alemanha. Filho de pais dinamarqueses, mas abandonado à nascença pelo pai, foi educado por Theodor Homburger, um pediatra judaico-alemão, que pensava ser o seu verdadeiro pai.

Em 1927, Erikson enveredou pela docência, tornando-se, a convite de um antigo colega de escola, professor numa escola que se distinguia pelo seu estilo muito progressivo. Neste local Erikson teve a oportunidade de ensinar, não só as matérias convencionais, mas algo que muito lhe agradava como a pintura, o desenho e a história de diferentes culturas como a índia e a esquimó. Durante este período da sua vida Erikson começou a relacionar-se com a família Freud, muito especialmente com Anna Freud com quem iniciou psicanálise e com quem ganhou o gosto do estudo da infância.

Em 1930 publicou o seu primeiro artigo e em 1933, após completar a sua formação como psicanalista, foi eleito para o Instituto de Psicanálise de Viena. Também em 1933 emigrou para os de Estados Unidos onde iniciou a prática da psicanálise infantil em Boston, associando-se à Faculdade de Medicina de Harvard.

A partir desta altura Erikson começou a preocupar-se com o estudo da forma como o Ego ou a consciência operam de forma criativa em indivíduos considerados sãos. Em 1936 Erikson abandonou a Universidade de Harvard para trabalhar no Instituto de Relações Humanas de Yale. Em 1938 deu início aos seus primeiros estudos sobre as influências culturais no desenvolvimento psicológico, estudando crianças índias no Pine Ridge Reservations. Em 1939, transferiu a sua prática clínica para São Francisco e em 1942 começou a trabalhar como professor de psicologia na Universidade da Califórnia.

Erikson concebe oito estádios de desenvolvimento, cada um deles confrontando o individuo com as suas próprias exigências psicossociais, que prossegue até à terceira idade. O desenvolvimento da personalidade, segundo Erikson, atravessa uma série de crises que têm que ser ultrapassadas e interiorizadas pelo individuo como preparação para o estádio seguinte de desenvolvimento.

Erikson morreu em maio de 1994 deixando um legado teórico vasto.
Obras importantes de Erikson:

1950, Childhood and Society
1958, Young Man Luther
1969, Gandhi's Truth on the Origins of Militant Nonviolence
1975, Life History and the Historical Moment
1982, A Review
1986, Vital Involvement in Old Age"


in Erik Erikson. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-05-03].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$erik-erikson>

segunda-feira, 2 de maio de 2011

E porque hoje é segunda...é dia de teoria

Teorias de ensino e aprendizagem na escolha de uma escola para o seu filho
Uma das preocupações familiares é a aprendizagem dos filhos e um bom ensino escolar. Sabendo as principais correntes de pensamento na educação, você, mãe e pai, pode optar pela escola que melhor se adapta ao seu filho e o que deseja para ele. Ter uma noção do que cada cor­rente defende e o tipo de resul­tado que pre­tende atingir pode aju­dar na hora de esco­lher uma ­escola. Com infor­ma­ções sobre as prin­ci­pais teo­rias de ensino e apren­di­za­gem, também pode inter­pre­tar ­melhor o que um dire­ctor ou orien­ta­dor diz e terá mais ele­men­tos para ava­liar o colé­gio. Mas é pre­ciso cui­dado. "As teo­rias de ­ensino e apren­di­za­gem são abs­tra­cções. Mas a prá­tica não é uma sim­ples repro­du­ção de teo­rias", diz a lin­guista Fer­nanda Libe­rali, pro­fes­sora no Pro­grama de Pós-Gra­dua­ção da PUC/SP e con­sul­tora de ­várias esco­las. Sendo assim as principais correntes são:

1.                  Comportamentalismo – o professor planeia, estimula e passa o conhecimento aos alunos. O foco é a transmissão dos conteúdos.
Quem foi o pai da idéia: o psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner (1904-1990).
O que diz: é possível modelar o indivíduo, condicionando os seus comportamentos. Para isso, devem-se utilizar os estímulos e reforços adequados. Segundo Skinner, todo o comportamento é determinado pelo ambiente, mesmo que a relação do indivíduo com esse ambiente não seja passiva, e sim de interacção. Ou seja, um professor pode definir que resultado pretende alcançar com os seus alunos e oferecer-lhes os estímulos e recompensas adequados à medida que os alunos avançam.
Onde está o foco: nos conteúdos a serem transmitidos e no professor em si.
Qual é o papel do professor: o professor, ou até o livro didáctico, em alguns casos, é a autoridade máxima, detentora do conhecimento. O aluno é o aprendiz que deve absorver esse conhecimento quanto mais, melhor
Como se ­aprende: por memorização e repetição.
Como se introduz um novo conceito: o professor faz um planeamento e apresenta os conceitos do género: “Hoje vamos falar sobre…”.
Quais são os reflexos na sala de aula: as aulas, em geral, são expositivas, com o professor a falar e a turma, de preferência, quieta. Erros são corrigidos imediatamente e recorre-se à repetição.
Que tipo de indivíduo espera-se for­mar: pessoas com vasto saber enciclopédico. Indivíduos focados no trabalho, que correspondem às demandas e se ajustam bem aos ambientes.

2.                  Construtivismo - a criança constrói o conhecimento por meio de descobertas. Valoriza-se o conhecimento prévio do aluno.
Quem foi o pai da idéia: o bió­logo suíço Jean Pia­get (1896-1980).
O que diz: segundo Piaget, o pen­sa­mento infan­til passa por qua­tro está­gios, desde o nas­ci­mento até o iní­cio da ado­les­cên­cia, ­quando a capa­ci­dade plena de racio­cí­nio é atin­gida. Assim, a criança cons­trói o conhecimento a par­tir das suas des­co­ber­tas, ­quando em con­tacto com o mundo e com os objec­tos. Por isso, não ­adianta ensi­nar a um aluno algo que ele ainda não tem con­di­ções inte­lec­tuais de absor­ver. Ou seja, o tra­ba­lho de edu­car não se deve limi­tar a trans­mi­tir con­teú­dos, mas a favo­re­cer a acti­vi­dade men­tal do aluno. Por isso, impor­tante é não ape­nas assi­mi­lar con­cei­tos, mas tam­bém gerar ques­tões e ampliar ideias.
Onde está o foco: no aluno e nas suas ope­ra­ções men­tais.
Qual é o papel do pro­fes­sor: obser­var o aluno, inves­ti­gar quais são os seus conhe­ci­men­tos pré­vios, seus inte­res­ses e, a par­tir dessa baga­gem, pro­cu­rar apre­sen­tar diver­sos ele­men­tos para que o aluno cons­trua seu conhe­ci­mento. O pro­fes­sor cria situa­ções para que o aluno che­gue ao conhe­ci­mento.
Como se ­aprende: expe­ri­men­tando, viven­ciando.
Como se intro­duz um novo con­ceito: para falar em mul­ti­pli­ca­ção, por exem­plo, o pro­fes­sor pode apre­sen­tar uma sequên­cia de somas, até que o aluno che­gue ao con­ceito da mul­ti­pli­ca­ção. Nada de deco­rar ­tabuada. Ou, para apre­sen­tar for­mas geo­mé­tri­cas, o pro­fes­sor dará aos alu­nos ­vários mate­riais, eles farão dese­nhos e obser­va­rão figu­ras até per­ce­be­rem o cír­culo, o qua­drado, o triân­gulo, etc.
Quais são os refle­xos na sala de aula: há menos inter­fe­rên­cia do pro­fes­sor, que res­peita as fases desenvolvimentais do aluno e pro­cura cor­res­pon­der aos seus inte­res­ses. As salas têm mais objec­tos para manu­sear, mais mate­rial, como blo­cos lógi­cos, figu­ras, etc. As cor­re­cções não acon­te­cem de modo ime­diato, pois os erros são con­si­de­ra­dos parte do pro­cesso de apren­di­za­gem.
Que tipo de indi­ví­duo ­espera-se for­mar: pes­soas com auto­no­mia que inte­ragem com o meio, que têm ­ideias pró­prias e são capazes de criar, com uma visão par­ti­cu­lar do mundo.

3.                  Socioconstrutivismo – a aprendizagem não se subordina ao desenvolvimento das estruturas intelectuais da criança mas a uma cooperação em grupo. O trabalho em grupo é uma ferramenta-chave para a busca do conhecimento
Quem foi o pai da idéia: o psi­có­logo bielo-russo Lev ­Vygotsky (1896-1934).
O que diz: foca a inte­rac­ção. ­Segundo ­Vygotsky, todo apren­di­zado é neces­sa­ria­mente mediado e isso torna o papel do ­ensino e do pro­fes­sor mais activo do que o pre­visto por Pia­get. O apren­di­zado não se subor­dina ao desen­vol­vi­mento das estru­tu­ras inte­lec­tuais da ­criança, mas um se ali­menta do outro, pro­vo­cando sal­tos qua­li­ta­ti­vos de conhe­ci­mento. O ensino deve se ante­ci­par ao que o aluno ainda não sabe nem é capaz de apren­der sozi­nho. É a isso que se ­refere um de seus prin­ci­pais con­cei­tos, o de "zona de desen­vol­vi­mento pro­xi­mal", que seria a dis­tân­cia entre o desen­vol­vi­mento real da ­criança e ­aquilo que ela tem poten­cial de apren­der, ou entre "o ser e o tor­nar-se".
Onde está o foco: na inte­ra­cção. É na rela­ção aluno-pro­fes­sor e aluno-aluno que se pro­duz conhe­ci­mento.
Qual é o papel do pro­fes­sor: ele actua como media­dor entre o aluno, os conhe­ci­men­tos que este pos­sui e o mundo.
Como se ­aprende: obser­vando o meio, ­entrando em con­tacto com o que já foi des­co­berto e orga­ni­zando o conhe­ci­mento junto com os ­outros (pro­fes­sor e turma).
Como se intro­duz um novo con­ceito: se as crian­ças vão apren­der sobre doen­ças, por exem­plo, pri­meiro o pro­fes­sor ­coloca-as ­diante de pro­ble­mas para que os resol­vam com o que já sabem e mos­tra a elas a neces­si­dade de novos sabe­res, que terão de encon­trar de dife­ren­tes for­mas. Então, o professor as auxi­lia nesse pro­cesso de busca de novos conhe­ci­men­tos. Os alunos podem tanto ir entre­vis­tar um ­médico (o pro­fes­sor orien­tará a turma sobre como fazer uma entre­vista), como con­sul­tar um livro ou a inter­net.
Quais são os refle­xos na sala de aula: há mais cola­bo­ra­ção e tra­ba­lhos em grupo. Parte-se do conhe­ci­mento quoti­diano para se che­gar à pro­du­ção de conhe­ci­mento. O pro­fes­sor pro­põe tare­fas que desa­fiam os alu­nos. Erros são con­si­de­ra­dos parte do apren­di­zado pois mos­tram ao pro­fes­sor como o aluno está a raciocinar. Os con­teú­dos são apre­sen­ta­dos por temas: ­aprende-se sobre escra­vi­dão, por exem­plo, inves­ti­gando como ela se deu em ­vários perío­dos, e não neces­sa­ria­mente pela ordem cro­no­ló­gica. Uti­li­zam-se, para isso, mui­tos mate­riais: repor­ta­gens, fil­mes, etc.
Que tipo de indi­ví­duo ­espera-se for­mar: pes­soas coo­pe­ra­ti­vas, que ­tenham com­pro­misso com o mundo e com o outro, que sai­bam tanto expor suas ­ideias ­quanto ouvir. Pessoas que não neces­sa­ria­mente terão um conhe­ci­mento enci­clo­pé­dico, mas que saberão como pro­cu­rar as infor­ma­ções que lhe fazem falta.
4.                  Waldorf – clareza do raciocínio, equilíbrio emocional e iniciativa de acção. O professor acompanha a turma por sete anos.
Quem foi o pai da ideia: o educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925)
O que diz: a vivência deve preceder a teoria. Deste modo, o método prevê que o currículo escolar deve ser individualizado e levar em conta apenas as necessidades de aprendizagem do aluno em cada fase da sua vida.
Onde está o foco: no aluno e no seu tutor.

Qual o papel do professor: cada classe tem um tutor responsável por todas as matérias, que acompanha a mesma turma durante sete anos. "Nós precisamos ser uma referência de comportamento e disciplina para que o aluno possa se espelhar", justifica Alfredo Rheingantz, professor e membro da coordenação da Escola Waldorf Rudolf Steiner. Durante o período correspondente ao Ensino Médio, as classes ganham professores especialistas, mas continuam com um tutor.
Como se aprende: o ensino é dividido em ciclos de sete anos (de 0 a 7, de 8 a 14 e de 15 a 21 anos) e não há repetentes, justamente para que as etapas de aprendizagem possam estar em sintonia com o ritmo biológico próprio de cada idade. Como não há provas, as avaliações são baseadas nas actividades diárias, que resultam em boletins descritivos sobre o comportamento, a maturidade e o aproveitamento dos estudantes.
Como se introduz um novo conceito: outra característica da pedagogia Waldorf é o ensino em épocas. Em vez de ter aulas de diversas disciplinas ao longo do dia ou da semana, o aluno passa quatro semanas apenas a ver uma única matéria. "Isso permite que o aluno lembre mais facilmente o que viu e aprofunde melhor os conteúdos", diz Rheingantz.
Quais são os reflexos na sala de aula: no primeiro ciclo, a ênfase é no desenvolvimento da coordenação motora e no despertar da memória. Como essa fase é dedicada principalmente às actividades lúdicas, não inclui o processo de alfabetização, que acontece apenas no segundo ciclo. Neste, que corresponde ao ensino fundamental, o foco é na educação dos sentimentos para que os alunos adquiram maturidade emocional. Daí a pedagogia Waldorf ser repleta de actividades artísticas, como música, teatro e artes plásticas, além de trabalhos manuais, como marcenaria, tricô e jardinagem.
Que tipo de indivíduo espera-se formar: o método Waldorf visa desenvolver a personalidade do aluno, florescendo nele a clareza do raciocínio, equilibro emocional e a iniciativa de acção. No final da escola, o estudante estará pronto para exercitar o pensamento e fazer uma análise crítica do mundo.

5.                  Montessori – formação integral do jovem, uma “educação para a vida”.
Quem foi o pai da ideia: a pedagoga italiana Maria Montessori (1870-1952)

O que diz: a linha montessoriana valoriza a educação pelos sentidos e pelo movimento para estimular a concentração e as percepções sensório-motoras da criança.
Onde está o foco: no aluno. A teoria montessoriana crê que as crianças trazem dentro de si o potencial criador que permite que elas mesmas conduzam a aprendizagem e encontrem um lugar no mundo. “Todo conhecimento passa por uma prática e a escola deve facilitar o acesso a ela”, diz a educadora Talita de Oliveira Almeida. 
Qual o papel do professor: Maria Montessori foi pioneira no campo pedagógico ao dar mais ênfase à auto-educação do aluno do que ao papel do professor como fonte de conhecimento. “Ela acreditava que a educação é uma conquista da criança, pois percebeu que já nascemos com a capacidade de ensinar a nós mesmos, se nos forem dadas as condições”, diz Talita. Assim como no construtivismo, os professores assumem o papel de guia, conduzindo e motivando o aluno no processo de aprendizagem.
Como se aprende: o método Montessori parte do concreto rumo ao abstracto. Baseia-se na observação de que meninos e meninas aprendem melhor pela experiência directa de procura e descoberta. Para tornar esse processo o mais rico possível, a educadora italiana desenvolveu os materiais didácticos que constituem um dos aspectos mais conhecidos do seu trabalho. São objectos simples, mas muito atraentes, e projectados para provocar o raciocínio. Há materiais pensados para auxiliar todo tipo de aprendizado, do sistema decimal à estrutura da linguagem.
Como se introduz um novo conceito: na Educação Infantil, enfatiza a manipulação de peças de tamanhos, formas, texturas e cores diferentes. Na alfabetização, com a ajuda de objectos como o alfabeto móvel, utiliza-se o método fonético, em que o aprendizado parte do som da letra para se construir a palavra e depois o texto. Devido principalmente, às exigências do vestibular, a pedagogia montessoriana raramente é aplicada no Ensino Médio.
Quais os reflexos na sala de aula: crianças de idades diferentes são agrupadas numa mesma turma. Nessas classes, alunos de 5 e 6 anos estudam na mesma sala e seguem um programa único. Posteriormente eles passam para as turmas de 7 e 8, em seguida para as de 9 e 10, e, finalmente, alcançam o último estágio, que agrega jovens de 11, 12, 13 e 14 anos. Até os 10 anos, os alunos têm aulas com um único professor polivalente, enquanto nas salas de 11 a 14, esse professor ganha a companhia de docentes específicos para cada uma das disciplinas. Para que esse método funcione bem, frequentemente há actividades em duplas, trios ou grupos. Dependendo do conteúdo, o professor pode dividir a classe em grupos por idade. A maior parte do material didáctico, especialmente entre os mais novos, é de uso colectivo, como livros e lápis. A avaliação é feita para todas as tarefas, portanto, não existem provas formais. “Além de dar um conceito para cada aluno, os professores preparam boletins detalhados, especificando as posturas e os procedimentos dos estudantes”, conta Edimara de Lima, directora pedagógica da Escola Prima Montessori de São Paulo
Que tipo de indivíduo pretende formar: individualidade, actividade e liberdade do aluno são as bases da teoria, com ênfase para o conceito de indivíduo como, simultaneamente, sujeito e objecto do ensino. Montessori defendia uma concepção de educação que se estende além dos limites da acumulação de informações. O objectivo da escola é a formação integral do jovem, uma “educação para a vida”. A filosofia e os métodos elaborados pela médica italiana procuram desenvolver o potencial criativo desde a primeira infância, associando-o à vontade de aprender – conceito que ela considerava inerente a todos os seres humanos.

Retirado de: http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/materias_295376.shtml

segunda-feira, 11 de abril de 2011


 Porque hoje é segunda …é dia de Teoria! 
Teoria Ecológica do Desenvolvimento Humano


Uma das mais recentes teorias é a Teoria Ecológica do Desenvolvimento Humano e foi elaborada por Une Bronfenbrenner em 1992. A teoria em causa acrescenta a variável contexto à compreensão do Desenvolvimento Humano.
   A abordagem ecológica, proposta por Bronfenbrenner, tem sido usada para distinguir os processos evolutivos e os múltiplos factores que influenciam o processo do desenvolvimento humano. Investigar ecologicamente o desenvolvimento de crianças e adolescentes significa defini-los como pessoas em desenvolvimento e no contexto.
O ambiente ecológico é definido por Bronfenbrenner como um sistema de estruturas agrupadas, independentes e dinâmicas. O primeiro nível é definido como sendo o efeito de influências proximais – ambientais e do organismo – que advêm do interior do indivíduo, das suas características físicas e da distinção de objectos do ambiente imediato, que caracterizam a relação face a face.
 Segundo Bronfenbrenner, este nível mais “interno” de comunicação é chamado de microssistema, e deve ser entendido como incluindo as relações familiares, as relações na sala de aula entre colegas e com os professores, e as relações com os amigos no recreio.
O mesossistema refere-se aos elos e aos processos entre dois ou mais ambientes, nos quais os indivíduos se desenvolvem, isto é, a interacção entre os diversos microssistemas. Desta forma, o mesossistema das crianças e dos adolescentes em família consiste nas interacções entre a sua família e (1) a comunidade local (a religião, os transportes, os restaurantes e cafés, os locais de compras, as associações, clubes desportivos e parques de lazer públicos), (2) entre a família e a escola, e (3) entre a família e os seus parentes (avós, tios, primos), entre outros.
O microssistema e o mesossistema representam os ambientes cujos níveis de relação são proximais, face a face e com contacto físico, e as suas influências são mais evidentes, sendo de crucial importância para os processos de desenvolvimento. Aqueles ambientes nos quais o indivíduo não participa directamente, mas recebe influência indirecta, estão no seu exossistema. Além disso, o mesossistema e o exossistema, a partir de suas dinâmicas de funcionamento, irão influenciar a vida e as relações destas crianças e adolescentes, sendo fundamental a comunicação e a harmonia entre estes ambientes.
 O macrossistema, por sua vez, é o sistema mais amplo, abrange os valores, as ideologias, a organização e os processos das instituições sociais comuns a uma determinada cultura.
 As diferentes configurações dos microssistemas formam a rede de apoio afectivo/emocional social, importantes pelo seu efeito regulador no desenvolvimento.
A família é o primeiro microssistema no qual a pessoa em desenvolvimento interage. Para Bronfenbrenner, a família é definida como um sistema dinâmico e em interacção, compreendida num ambiente, próximo e imediato, da pessoa em desenvolvimento, que envolve actividades, papéis e um complexo de relações interpessoais. Os aspectos físicos, sociais e simbólicos na estrutura familiar contribuem para o desenvolvimento dos processos proximais.
As formas de interacção na família, na escola ou no acolhimento, estão alicerçadas sob três características de interacção: a reciprocidade, o equilíbrio de poder e a relação afectiva. Estas características ajudam o microssistema a manter-se estruturado a fim de permitir um desenvolvimento saudável.


                                                                                                                      Retirado e adaptado de http://jpmgoncalves.home.sapo.pt/index_pedh.htm#bronfenbrenner