terça-feira, 10 de maio de 2011

Porque hoje é segunda... é dia de teoria!

Com algum atraso, mas sem querer passar em falso mais uma segunda feira, o blogue cresSER apresenta mais uma teoria sobre o desenvolvimento. Esta segunda (terça) feira é sobre o Psicólogo francês, Henri Wallon. "Este nasceu em 1879 e desde cedo se questionou acerca da forma como se processa o desenvolvimento psicológico. Wallon considerava que não existe uma continuidade serena ao longo do desenvolvimento, mas sim um processo que se desenrola através de crises e conflitos que geram crescimento e consequente evolução.

A sua teoria do desenvolvimento apresenta seis estádios: o estádio da impulsividade motora, onde a criança embora não esteja numa dependência biológica total com a mãe, continua ainda dependente do meio humano à sua volta para a satisfação das suas necessidades mais básicas; o estádio emocional que se inicia por volta dos dois, três meses atingindo o seu apogeu aos seis meses e que se caracteriza pela transformação progressiva das descargas impulsivas sobrepondo-se ao estádio impulsivo; o estádio sensório-motor e projetivo, no qual a criança se liberta do estado de simbiose afetiva com a mãe; o estádio do personalismo que vai dos três aos seis anos, devendo a criança adquirir neste período as noções de corpo próprio e a tomada de consciência de si; o estádio categorial que se situa por volta dos seis/onze anos e no qual surgem dados relativos à construção do Eu e ao conhecimento dos objetos e situações que permitem à criança uma adaptação mais equilibrada ao meio; e por fim o estádio da puberdade e da adolescência onde se verifica um rompimento súbito e abrupto com o equilíbrio anteriormente adquirido. Neste último estádio, o adolescente vai questionar-se sobre as transformações físicas e psicológicas que está a vivenciar, dando normalmente origem a uma crise que marca o início da adolescência e que leva a uma viragem sobre si próprio provocando uma reflexão sobre o seu destino, o seu futuro, a razão de existir, o mundo que o rodeia, entre outros aspetos. É um processo de identificação, uma crise, que tem de ser ultrapassada para gerar desenvolvimento.

Para Wallon o comportamento de cada individuo é, assim, determinado pela interação entre fatores biológicos e sociais.

Este psicólogo desenvolvimentalista morreu em 1962 deixando um legado de obras importantes tais como L'Evolution psychologique de l'enfant, A Psicologia e educação da criança, entre outras."


in Henri Wallon. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-05-10].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$henri-wallon>

sexta-feira, 6 de maio de 2011

7 Semanas...7 Hábitos

2º

Os bons pais alimentam o corpo, os pais brilhantes alimentam a personalidade!


Este hábito dos pais brilhantes contribui para desenvolver nos seus filhos: reflexão, segurança,

liderança, coragem, optimismo, capacidade de superação do medo e de prevenção de conflitos.

Os bons pais cuidam da nutrição física dos filhos (boa dieta, alimentos saudáveis, etc.,). Os pais brilhantes sabem que a personalidade precisa de uma excelente nutrição psíquica e preocupam-se com os alimentos que enriquecem a inteligência e a emoção.
Antigamente uma família estruturada era uma garantia de que os filhos desenvolveriam uma personalidade saudável. Hoje, bons pais produzem filhos ansiosos, alienados, autoritários e angustiados. Porque a sociedade se tornou uma fábrica de stress e os pais não têm controlo sobre o processo de formação da personalidade dos filhos. Ter cultura, boas condições financeiras, excelente relação conjugal e propiciar uma boa escola/educação aos jovens não basta para produzir saúde psíquica.
Por isso, prepare os seus filhos para sobreviverem nas águas turbulentas da emoção e desenvolverem capacidade crítica. Só assim poderão filtrar os estímulos "stressantes" e serão livres para escolher e decidir. Prepare o seu filho para "ser", pois o mundo o prepará para "ter".
Ajude-os a não serem escravos dos seus problemas. Não se conforme se eles forem tímidos e inseguros. Lembre-se que quando a auto-estima nasce, a alegria morre.
Alimente a personalidade dos seus filhos com sabedoria e tranquilidade. Não se esqueça que tropeçamos nas pequenas pedras e não nas grandes montanhas. E que as pequenas pedras no inconsciente, transformam-se em grandes colinas.
Assim, os pais brilhantes não formarão heróis, mas seres humanos que conhecerão os seus limites e a sua força.


Retirado e adaptado do livro Pais Brilhantes, Professores Fascinantes de Augusto Cury

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Sexualidade dos adolescentes

Sexualidade dos adolescentes foi o nome que Eva Delgado-Martins, Psicóloga e Docente do Ispa, IU, deu à sua crónica ,com a etiqueta confiança, na revista Notícias Magazine. Uma crónica que alerta para o facto de todas as pessoas (família, escola, comunidade, organizações não-governamentais, autarquias, institutos públicos e privados, locais de prazer e diversão...) estarem, directa ou indirectamente, envolvidas no desenvolvimento dos adolescentes e da sua educação sexual no âmbito da saúde.

"A maioria dos debates sobre a sexualidade dos adolescentes é simplista porque se centra nas «relações sexuais físicas» e suas eventuais «más» consequências como, por exemplo, a transmissão de doenças, ignorando a sua importância no percurso dos jovens para a idade adulta. A maneira como o desenvolvimento sexual se processa é determinante na formação da personalidade. Por vezes os adolescentes ficam indecisos sobre o caminho a seguir, ficam bloqueados. Uma sexualidade que dá satisfação, que dá prazer e que é vivida com segurança pode contribuir para o bem-estar do indivíduo."

"Uma correcta orientação, que é necessária para uma adolescência mais harmoniosa, responsável e segura, é um tema difícil para a maioria dos pais, dos professores e dos adultos em geral. Quando conseguem comunicar, os adolescentes têm perguntas sobre aspectos concretos da sexualidade - o acto sexual, a contracepção, a interrupção da gravidez - a que os adultos nem sempre respondem confortavelmente."

em Notícias magazine #972, 9 de Janeiro de 2011.

Cantagalo: Uma história de São Tomé e Príncipe

O blogue cresSER aconselha-o a ler COM os seus filhos.


Há muitos, muitos anos todos os galos do mundo se refugiavam na Ilha de São Tomé, talvez por ser uma terra lindíssima e boa para viver. Quando o Sol rompia as nuvens, de madrugada, punham-se todos a cantar anunciando um novo dia: «Cocorococó!» A alegria imensa de estarem juntos e o facto de as suas vozes funcionarem bem em coro, levava-os a repetir a cantoria a qualquer hora, esquecendo que incomodavam os outros habitantes da ilha.
Havia pessoas que lhes achavam graça e até gabavam aquela alegria contagiante que enchia a atmosfera de música. Mas a maior parte reclamava: «Isto não pode ser! Precisamos de sossego! Ninguém aguenta esta barulheira...»
Os dois grupos discutiam, uns a favor dos galos, outros contra. E as conversas iam-se tornando tão azedas que por pouco não se envolviam à pancada. Então um homem sensato resolveu tomar medidas para resolver o assunto. Pegou num papel e numa caneta e escreveu a seguinte mensagem para os galos: «Aconselho-vos a emigrarem e a fixarem-se num local afastado onde possam cantar quando lhes apetecer sem se tornarem aborrecidos. Se não aceitarem a sugestão, haverá guerra.»
Os galos, sendo bem-educados e pouco apreciadores de brigas, preferiram partir. Reuniram-se para escolher um rei que chefiasse a expedição; a escolha do recaiu num enorme galo preto, de que todos gostavam muito porque tinha imensas qualidades, e lá foram em busca de um sítio ideal para músicos bem-dispostos e barulhentos que gostavam de gozar a vida sem se tornarem incómodos. Juntos deram voltas e mais voltas pelas ilhas e pelos ilhéus do arquipélago, até encontrarem o que pretendiam. Ali ficaram para sempre e as pessoas baptizaram o lugar com o nome de Cantagalo. Esse lugar ainda hoje existe.

História retirada do livro "Rãs, Príncipes e Feiticeiros - Oito Histórias dos Oito Países Que Falam Português. Caminho.
Sugerido na nossa biblioteca de "Alguns livros para ler com o seu filho".

Juno: adolescência, divórcio e relacionamentos

Em Juno, o contexto familiar da adolescente que dá nome ao filme é o de esta pertencer a uma família separada pelo divórcio dos pais, que para além da existência da ruptura conjugal existe ainda uma ruptura parental. A mãe é uma mãe ausente na sua vida e o pai nunca estabeleceu com ela uma vinculação suficientemente forte para existir abertura, diálogo e convivência entre estes.
O tema: divórcio, nas últimas décadas, tem tido um crescente interesse em ser estudado e reflectido devido ao acentuado aumento de casos em todo o mundo. Como conjugação deste ser um tema abordado no filme e do facto de o blogue cresSER ter como função a divulgação de assuntos de relevância para o desenvolvimento da criança no contexto familiar, achamos pertinente divulgar um artigo: “Adolescência e Divórcio Parental: continuidades e rupturas dos relacionamentos”, publicado a 7 de Maio de 2010, de Soraya Hack e Vera Ramires, ambas Psicólogas. O objectivo do artigo é apresentar uma revisão da literatura que aborda os relacionamentos pais-filhos no contexto das transições familiares relacionadas à separação e/ou divórcio parental, focando as reacções, as experiências, as concepções, os sentimentos dos filhos, especialmente dos adolescentes.
Nas últimas décadas, assistimos a uma mudança no cenário sociocultural, provocada, entre outros factores, pelas alterações na estrutura familiar. O divórcio trouxe um leque de novas configurações e organizações familiares. A separação dos pais muitas vezes implica descontinuidades, rupturas no relacionamento parental, gerando sentimentos de perda e desamparo.
Os efeitos do divórcio não são necessariamente adversos (Hetherington & Kelly, 2002; Hetherington & Stanley-Hagan, 1999). Muitos filhos que se movem de uma situação familiar conflituosa para uma situação mais harmónica mostram uma diminuição de problemas após a separação de seus pais (Kelly & Emery, 2003).
A literatura científica tem explorado e descrito numerosos factores que contribuem para as vicissitudes do pós-divórcio: o tempo de separação, as características da personalidade das crianças e adolescentes, a sua idade na ocasião da separação, o género, o nível de conflito entre os pais e a qualidade da parentalidade.
O problema instala-se quando os pais, além de considerarem os cônjuges como “ex”, passam a enquadrar suas crianças na categoria de “ex-filhos” (Dantas et al., 2004).
A capacidade dos filhos em lidar com a separação dos pais vai depender sobretudo da relação estabelecida entre os pais e da capacidade destes de distinguir a função conjugal da função parental (Féres-Carneiro, 1998).
Segundo a revisão de Cohen (2002), no divórcio parental o adolescente pode desenvolver uma autonomia prematura, com desidealização de cada pai. Também sentimentos de raiva e confusão podem levar a problemas de relacionamento, uso de substâncias, decréscimo do desempenho escolar, conduta sexual inadequada, depressão, agressividade e comportamento delinquente. Problemas académicos e dificuldades de relacionamento também apareceram na revisão de Kelly e Emery (2003). O estudo de corte realizado por Harland et al. (2002) detectou um índice maior de problemas comportamentais entre 12 e 16 anos nos filhos provenientes de famílias com pais divorciados.
De acordo com Kelly e Emery (2003), o adolescente do sexo masculino tem mais riscos de apresentar problemas de ajustamento e problemas académicos. No entanto, as adolescentes estão inclinadas a engravidar mais cedo.
As pesquisas, independentemente da variável em foco ou da metodologia utilizada, sugerem que o divórcio parental passa a ser um factor de risco para os filhos, caso se tenha consolidado um afastamento entre eles e as figuras parentais. A sensação de abandono e desamparo cria uma situação de vulnerabilidade, propiciando o aparecimento ou a potencialização de desajustes.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Juno numa perspectiva eriksoniana

Erikson propõe uma concepção de desenvolvimento em oito estádios psicossociais, que decorrem desde o nascimento até à morte. Cada estádio é atravessado por uma crise psicossocial entre uma vertente positiva e uma negativa. Erikson dá especial importância ao período da adolescência, devido ao fato ser a transição entre a infância e a idade adulta, em que se verificam acontecimentos relevantes para a personalidade adulta.
Cada estádio contribui para a formação da personalidade total, sendo por isso todos importantes mesmo depois de os atravessar.
O núcleo de cada estádio é uma crise básica, que existe não só durante aquele estádio específico, nesse será mais proeminente, mas também nos posteriores a nível de consequências, tendo raízes prévias nos anteriores.
Erikson perspectivava o desenvolvimento tendo em conta aspectos biológicos, individuais e sociais.
Esta teoria psicossocial enfatizava o conceito de identidade, a qual se forma no 5º estádio, e o de crise que, sem possuir um sentido dramático, está presente em todas as idades, sendo a forma como é resolvida determinante para resolver na vida futura os conflitos.

Esquema de desenvolvimento de Erik Erikson

1. Confiança  vs  Desconfiança  (até um ano de idade)

Durante o primeiro ano de vida a criança é significativamente dependente das pessoas que cuidam dela, requerendo cuidado quanto à alimentação, higiene, locomoção, aprendizagem de palavras e dos seus significados, bem como estimulação para perceber que existe um mundo em movimento ao seu redor. O amadurecimento ocorrerá de forma equilibrada se a criança sentir que tem segurança e afecto, adquirindo confiança nas pessoas e no mundo.

2. Autonomia  vs  Vergonha e Dúvida   (segundo e terceiro ano)

Neste estádio a criança passa a ter controle de suas necessidades fisiológicas e a cuidar da sua higiene pessoal, o que dá à criança grande autonomia, confiança e liberdade para tentar novas coisas sem medo de errar. Se, no entanto, for criticada ou ridicularizada desenvolverá vergonha e dúvida quanto à sua capacidade de ser autónoma, provocando um retrocesso ao estágio anterior, ou seja, à dependência.

3. Iniciativa  vs  Culpa (quarto e quinto ano)

Neste período a criança passa a perceber as diferenças sexuais, os papéis desempenhados por mulheres e homens, entendendo de forma diferente o mundo que a rodeia. Se a sua curiosidade “sexual” e  intelectual for reprimida e castigada poderá desenvolver sentimento de culpa e diminuir a sua iniciativa de explorar novas situações ou de procurar novos conhecimentos.

4. Construtividade  vs  Inferioridade (dos 6 aos 11 anos)

Durante este estádio a criança está a frequentar a escola, o que propicia o convívio com pessoas que não são seus familiares. Este facto exigirá  maior sociabilização, trabalho em conjunto, cooperatividade e outras habilidades necessárias. Caso tenha dificuldades o próprio grupo irá criticá-la, passando a viver a inferioridade em vez da construtividade.

5. Identidade  vs  Confusão de Papéis (dos 12 aos 18 anos)

O quinto estádio adquire contornos diferentes devido à crise psicossocial que nele acontece, ou seja, Identidade Versus Confusão. Neste contexto o termo crise não possui uma acepção dramática, por  tratar-se de acontecimentos pontuais e localizado com pólos positivos e negativos.

6. Intimidade  vs  Isolamento (jovem adulto)

Neste estádio o interesse, além de profissional, gira à volta da construção de relações profundas e duradouras, podendo vivenciar momentos de grande intimidade e entrega afectiva. Caso haja uma decepção a tendência será o isolamento temporário ou duradouro.

7. Produtividade  vs  Estagnação  (meia idade)
Durante este estádio o indivíduo pode dedicar-se à sociedade realizando valiosas contribuições ou grande preocupação com o conforto físico e material.

8. Integridade  vs  Desesperança (velhice)

Neste último estádio o envelhecimento ocorre com  sentimento de produtividade e valorização do que foi vivido, sem arrependimentos e lamentações sobre oportunidades perdidas ou erros cometidos, haverá integridade e ganhos. Como contrário a isso existe a desesperança que se manifesta num sentimento de tempo perdido e na noção da  impossibilidade de começar de novo, de voltar atrás.

adaptado de Teoria Psicossocial do desenvolvimento de Erik Erikson in artigos.psicologado.com

O filme Juno retrata a experiência da gravidez na adolescência, por parte da jovem Juno (16 anos), e como esta experiência é percepcionada tanto na rapariga, como no futuro pai da criança (também ele adolescente), como também por parte dos pais da jovem Juno. Segundo Erikson, é nesta faixa etária que acontece a transição da infância para a idade adulta, desenvolvendo um sentido de identidade. Identidade vs confusão de papéis é a crise psicossocial deste estádio, tendo esta uma vertente positiva e outra negativa. «[…] uma mudança decisiva, um momento agudo de desequilíbrio. A noção está portanto associada às noções da continuidade ou da descontinuidade do desenvolvimento, e à própria validação do conteúdo dos estádios». (Roland Doron; François Parot, 2001: p.196)
Na vertente positiva, o adolescente vai adquirir uma identidade psicossocial, isto é, compreende a sua singularidade, o seu papel no mundo.
Neste estádio os indivíduos estão recheados de novas potencialidades cognitivas, exploram e ensaiam estatutos e papéis sociais, devido à sociedade potenciar este espaço de experimentação ao adolescente. É neste âmbito que ressalta um dos conceitos eriksonianos que ajuda a conferir tanta relevância a este estádio, ou seja, a moratória psicossocial.
«Esta moratória é um compasso de espera nos compromissos adultos. É um período de pausa necessária a muitos jovens, de procura de alternativas e de experimentação de papéis, que vai permitir um trabalho de elaboração interna». (Manuela Monteiro; Milice Ribeiro dos Santos, 2001: p.56)

Juno, assim como um grande número de adolescentes, tem uma evolução incompleta por ter entrado excessivamente rápido na vida adulta, devido ao facto de estar grávida, sem um amadurecimento interior, que só poderia ter sido facultado por uma boa vivência neste estádio e nos seus diferentes aspectos.
Logo na primeira cena, a rapariga aparece a carregar uma garrafa de sumo, que ela leva à boca em grandes goles. Dirige-se para uma loja de conveniência onde compra o terceiro teste de gravidez. O homem que está na caixa, num tom bastante informal e invasivo, lembra-a de que ela já fez dois testes, ambos com resultado positivo. Ela, sem se importar com o comentário, vai ao WC para refazer o teste, o qual confirma os outros dois. Ela está grávida. Juno vê a notícia como uma sentença e apercebendo-se da sua imaturidade para lidar com este acontecimento trágico, que mudaria completamente a sua vida, tenta pensar em soluções. Soluções que parecem as mais rápidas (aborto), para que tudo não passe de um pesadelo, mas que ao mesmo tempo a assombram com o que poderão ser ou trazer.
A chave para a resolução desta crise de identidade, que faz com que a adolescente se sinta isolada, vazia, ansiosa e indecisa, reside na interacção com pessoas significativas, como o Paulie (pai do bebé), com o qual vai ao longo do filme estabelecendo laços afectivos, que são escolhidas e são parte integrante da construção da sua identidade adulta.
Paulie, pai do bebé é caracterizado como um rapaz muito infantil, alienado, que parece não entender minimamente o desenrolar das acções, as suas consequências e a responsabilidade que lhe cabe em tudo isso. Ele e um amigo comentam que Juno está grávida, “assim como a mãe e as professoras ficam”. Há uma inocência na leitura desta experiência.
Erikson refere que os problemas no desenvolvimento da identidade podem culminar numa identidade difusa, caracterizada por «[…]uma noção do eu incoerente, desarticulada e incompleta», numa identidade bloqueada, caracterizada pela «[…] não permissão do período normal de moratória por questões sociais, familiares e/ou pessoais» e finalmente numa identidade negativa, em que «o adolescente selecciona identidades que são indesejáveis para a família e sua comunidade».
O versus negativo menciona os aspectos, sentimentos relacionados à confusão/difusão de quem ainda não se descobriu a si próprio, e não sabe o que pretende, tendo dificuldade em optar.
É importante contextualizar que Juno pertence a uma família desestruturada. Filha de pais divorciados, a mãe é totalmente ausente e o pai nunca criou com ela uma vinculação suficientemente forte para que esta confie nele. Foi por isso habituada a descobrir e experienciar a vida por ela própria. Este facto remete para os estádios anteriores da teoria de Erikson, sugerindo que estes não tiveram as suas crises revolvidas, na sua maioria, numa vertente positiva; acabando por influenciar o estádio da adolescência como um estádio caracterizado pela instabilidade.

Erik Erikson

"Psicanalista de origem alemã, Erik Homburger Erikson nasceu a 15 de Junho de 1902, no início do século em Frankfurt, na Alemanha. Filho de pais dinamarqueses, mas abandonado à nascença pelo pai, foi educado por Theodor Homburger, um pediatra judaico-alemão, que pensava ser o seu verdadeiro pai.

Em 1927, Erikson enveredou pela docência, tornando-se, a convite de um antigo colega de escola, professor numa escola que se distinguia pelo seu estilo muito progressivo. Neste local Erikson teve a oportunidade de ensinar, não só as matérias convencionais, mas algo que muito lhe agradava como a pintura, o desenho e a história de diferentes culturas como a índia e a esquimó. Durante este período da sua vida Erikson começou a relacionar-se com a família Freud, muito especialmente com Anna Freud com quem iniciou psicanálise e com quem ganhou o gosto do estudo da infância.

Em 1930 publicou o seu primeiro artigo e em 1933, após completar a sua formação como psicanalista, foi eleito para o Instituto de Psicanálise de Viena. Também em 1933 emigrou para os de Estados Unidos onde iniciou a prática da psicanálise infantil em Boston, associando-se à Faculdade de Medicina de Harvard.

A partir desta altura Erikson começou a preocupar-se com o estudo da forma como o Ego ou a consciência operam de forma criativa em indivíduos considerados sãos. Em 1936 Erikson abandonou a Universidade de Harvard para trabalhar no Instituto de Relações Humanas de Yale. Em 1938 deu início aos seus primeiros estudos sobre as influências culturais no desenvolvimento psicológico, estudando crianças índias no Pine Ridge Reservations. Em 1939, transferiu a sua prática clínica para São Francisco e em 1942 começou a trabalhar como professor de psicologia na Universidade da Califórnia.

Erikson concebe oito estádios de desenvolvimento, cada um deles confrontando o individuo com as suas próprias exigências psicossociais, que prossegue até à terceira idade. O desenvolvimento da personalidade, segundo Erikson, atravessa uma série de crises que têm que ser ultrapassadas e interiorizadas pelo individuo como preparação para o estádio seguinte de desenvolvimento.

Erikson morreu em maio de 1994 deixando um legado teórico vasto.
Obras importantes de Erikson:

1950, Childhood and Society
1958, Young Man Luther
1969, Gandhi's Truth on the Origins of Militant Nonviolence
1975, Life History and the Historical Moment
1982, A Review
1986, Vital Involvement in Old Age"


in Erik Erikson. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-05-03].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$erik-erikson>